Dylan se reconstrói e foge da idolatria em show em São Paulo

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Dylan se apresentou em São Paulo no domingo (22). Foto: Tiago Dias/Terra

Há alguns dias, o Brasil recebeu dois dos mais importantes artistas do século 20. Paul McCartney trouxe seu legado beatle para Recife no sábado (21) e domingo (22). Nos mesmos dias, Dylan montou seu circo musical (que influenciou a música como a conhecemos hoje – inclusive a dos Beatles) em São Paulo. Já apresentadas as semelhanças, segue um abismo de distância sobre como cada um lida com seu próprio legado e imagem, após mais de 50 anos de carreira.

Além do aviso unânime de que Dylan “desconstrói” suas músicas a ponto de ninguém reconhecê-las, o compositor proibiu jornalistas e fotógrafos em seus shows. Enquanto McCartney brincava com o público, arriscava no português e se preparava para a chuva de fogos de artificio no estádio Arruda, Dylan se apresentava no Credicard Hall como se estivesse com os amigos em um saloon. De chapéu e com uma banda alinhada em seus ternos, Dylan entra sem fazer estardalhaço no palco, que tem como cenário apenas as sombras dos integrantes. Sem telões, sem interação com a plateia, sem entrevistas. Apenas música.

Na noite de domingo (22), os primeiros acordes deLeopard-Skin Pill-Box Hat tocaram às 20h02. A voz cavernosa é limitada, mas acompanhou bem a reinterpretação das músicas – quase todas elas mais blues, sonoridade que marcou seu penúltimo álbum,Modern Times (2006). Até Things Have Changed – vencedora do Oscar de melhor canção em 2000 – apareceu com andamento diferente.

Em perfeita sintonia, Dylan e banda parecem estar em uma jam. Cada entrada com a gaita – sempre aplaudida – emociona e a banda parece estender ao máximo a instrumentação digna de uma big band, apenas por prazer. Dylan balança o corpo quando sola no teclado, aparenta se divertir. Sem se importar se tem alguém coçando a cabeça, confuso, na plateia. No domingo, parecia que havia poucos assim.

Os hits vieram. Da versão alta e solada de It Ain’t Me, Babe a Like a Rolling Stone – que fez cantar até uma mulher na plateia que passou o show checando e-mails no celular. O público vibrava com os acordes conhecidos de Tangled Up in Blue e All Along the Watchtower, mas tinham dificuldade em acompanhar o canto grunhido do bardo.

O compositor até relembrou a época em que esteve de cara com a morte por conta de um sério problema cardíaco em 1997. Dessa época, apareceram os verdadeiros epitáfios Tryin’ To Get To Heaven e Not Dark Yet, de Time Out of Mind. Falar mesmo, só ao final do show, quando apresenta, empolgado, sua banda.

Muito se falou – negativamente – das versões de suas músicas. Mas não haveria caminho mais natural para Dylan. O cantor, em muitas de suas mortes e reencarnações, já tinha percebido que seu combustível intelectual e musical estava ligado em reinterpreta-las até um ponto em que parecessem novas para ele. Dylan incomodou muitos fãs ao se reinventar no final dos anos 60 e quando deu o pontapé definitivo na prática em sua turnê em 1974 com a The Band. Não é por estar prestes a completar 71 anos que Dylan faria algo diferente.

Como se isso não bastasse, Dylan renega sua própria imagem e foge da idolatria como o diabo foge da cruz – uma batalha difícil, ele sabe. Na versão dura – e tão emocionante quanto à gravação original – de Ballad of Thin Man, o público se levantou e correu para se espremer no limite da barreira de segurança. Câmeras e celulares então subiram para registrar o ídolo de perto. Ele pareceu não se importar. E voltou para o bis, com Blowin’ in the Wind.

Bob Dylan se apresenta ainda em Porto Alegre, na terça-feira (24), quando parte para Argentina. Paul McCartney ainda se apresenta no Brasil um dia depois, na quarta (25), em Florianópolis.

Setlist
Leopard-Skin Pill-Box Hat
It Ain’t Me, Babe
Things Have Changed
Tangled Up In Blue
Beyond Here Lies Nothin’
Not Dark Yet
Summer Days
Simple Twist Of Fate
High Water (For Charley Patton)
Trying To Get To Heaven
Highway 61 Revisited
Forgetful Heart
Thunder On The Mountain
Ballad Of A Thin Man
Like A Rolling Stone
All Along The Watchtower

Blowin’ In The Wind

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